15 de jul de 2011

Artigo

Especialista diz que a espinha dorsal da Defesa Civil é o Corpo de Bombeiros Militar- CBM no Acre.

CBM conta com um efetivo de pouco mais de trezentos homens e mulheres, cerca de vinte por cento do efetivo previsto em lei. O deficit é de mais de mil bombeiros, afirma Foster Brown

Na cerimônia de agradecimento aos que ajudaram na enchente de abril em Rio Branco, o Major George Santos declarou que todos nós somos parte da Defesa Civil do Acre. É verdade. E cada vez mais estamos vendo a necessidade de envolvimento da populaçao na resposta da sociedade a desastres. Alguns dados podem explicar esta necessidade.
A enchente de 2011 resultou em mais de 500 famílias sendo desabrigadas e custos em torno de 50 milhões de reais em Rio Branco, mas esta foi só uma de cinco enchentes nos últimos sete anos, orçados em mais de 150 milhões reais em custos diretos, além da angústia das famílias.
Neste período tivemos duas secas extremamente fortes, em 2005 e 2010,  acompanhadas por incêndios em áreas agrícolas, pastos e florestas, com danos sociais e ambientais medidos em dezenas a centenas de milhões de reais, sem falar do sofrimento que a população teve com a fumaça, problemas espiratórios e falta de água.
Parte dos impactos destes eventos extremos é devido ao aumento populacional. Temos mais 150 mil pessoas no Acre entre os censos de 2000 e 2010 e este aumento, acoplado com migrações internas no Estado, tem colocado mais pessoas em áreas de risco nas cidades acreanas.
No mesmo tempo, a área desmatada no Estado, segundo dados do INPE, aumentou 550.000 hectares ou cerca de três por cento do Estado, especialmente na região Leste, o que significa que temos mais áreas suscetíveis ao fogo.
Para complicar a situação, os eventos extremos estão ficando mais frequentes. As secas de 2005 e 2010 foram de tão grande magnitude que sua frequência era considerado algo como uma vez por século, ou seja, as chances de um porcento por ano. Em sete anos, tivemos duas destas secas, ou traduzindo em forma de
probabilidade, quase 30 por cento por ano. Nos últimos três anos a cidade de Rio Branco sofreu enchentes consecutivas.
Além destes eventos, a Defesa Civil precisa preparar-se também para eventos como acidentes com produtos perigosos, apagões extendidos, acidentes com múltiplas vítimas, etc. Estes eventos são mais raros do que enchentes, mas quando acontecem criam impactos enormes.
Antigamente a Defesa Civil foi usada excepcionalmente. Havia um orçamento de um real para manter a conta bancária aberta, caso fosse necessário para uma emergência. Hoje em dia, as secas e enchentes estão se tornando quase eventos anuais.
A espinha dorsal da Defesa Civil é o Corpo de Bombeiros Militar- CBM. Suas tarefas têm sido expandidas enormemente. Antes de 2005, o Corpo de Bombeiros focou suas ações em prevenção e combate de incêndios urbanos. Esta tarefa aumentou em escala e complexidade com o crescimento das cidades e sua verticalização, basta a ver os prédios de doze andares em Rio Branco que precisam de novas técnicas e equipamentos para situações de resgate.
Em 2005 os incêndios rurais queimaram 500.000 hectares de pastos, áreas agrícolas e florestas. Esta nova realidade – fogo na floresta - cria novas demandas para o CBM.
O CBM agora tem também a responsabilidade de cuidar de incêndios rurais, inundações e até trabalhar com refugiados, como o caso de cerca de mil refugiados bolivianos que chegaram na fronteira em setembro de 2008 e os mais de quinhentos haitianos que apareceram nestes últimos meses em Epitaciolândia e Brasiléia.
Se estas responsabiliades não foram suficientes, o aumento da frequência de eventos extremos, como secas e enchentes, implica que o CBM precisa ser estruturado para trabalhar com secas prolongadas como a de 1926 que durou quase um ano.
As demandas crescentes – estradas interoceânicas (transporte de cargas perigosas e mais acidentes), industrialização, incêndios florestais e enchentes mais frequentes, crescimento populacional - exigem um CBM cada vez mais profissional com capacidade para atuar em diversas situações no Estado inteiro.
Atualmente o CBM conta com um efetivo de pouco mais de trezentos homens e mulheres, cerca de vinte por cento do efetivo previsto em lei. Existem deficits de mais de mil bombeiros, tanto oficiais nos primeiros postos quanto praças. Pior ainda, devido ao tempo de serviço, muitos dos bombeiros atuais estão próximo a ir para a reserva.
Como foi dito, a Defesa Civil é de todos, mas precisamos de um CBM xpandido e profissional, que possa, além de atuar operacionalmente, capacitar a  sociedade para lidar com desastres, transformando a socidade civil em uma defesa civil. Esta capacitação serviria para a criação de uma sociedade mais segura e solidária, ciente dos riscos e ameaças a que está submetida.
Sem esta expansão e profissionalização, corremos o risco de ter um CBM que não vai dar conta do recado frente a desastres cada vez mais frequentes.
*Foster Brown, Pesquisador do Centro de Pesquisa de Woods Hole, Docente do Curso de Mestrado em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais (MEMRN) da Universidade Federal do Acre (UFAC) e Cientista do Experimento de Grande Escala Biosfera Atmosfera na Amazônia (LBA), do INCT SERVAMB e do Parque Zoobotânico da UFAC. Trabalha como voluntário com a Defesa Civil desde 2005.

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